A espiritualidade acompanha Sara desde a infância. Hoje conhecida como Mãe Sara Oni, a líder espiritual e mãe de axé transformou uma trajetória marcada pela busca religiosa, por diferentes experiências de fé e por uma longa resistência em assumir a liderança espiritual em seu próprio ofício.
Fundadora do Cinzambi, religião criada em 16 de junho de 2016, ela dedica atualmente sua vida ao trabalho como mãe de axé e à expansão do conhecimento espiritual fundamentado nos Orixás.
Nascida e criada em São Paulo, mãe Sara conta que suas primeiras lembranças relacionadas à fé remontam aos seis anos, quando foi alfabetizada em uma igreja católica e começou a questionar quem era Deus. Embora tenha feito a primeira comunhão, sua família não mantinha uma imposição religiosa. Do lado paterno, havia forte presença do kardecismo, incluindo um bisavô que, segundo ela, esteve entre os fundadores de um centro kardecista nas décadas de 1920 ou 1930. Do lado materno, havia maior liberdade religiosa e a lembrança de uma avó ligada à Umbanda.

Foi aos 12 anos, porém, que uma experiência mudaria sua relação com a espiritualidade. Durante uma brincadeira de invocação de espíritos com outras crianças, mãe Sara relata que o copo utilizado pelo grupo estourou e ela desmaiou. Posteriormente, uma vizinha ligada ao Candomblé teria dito à sua mãe que a menina era de filha de mãe Iansã e indicado que ela fosse levada até uma rezadeira da comunidade. Foi nesse período que mãe Sara teve os primeiros contatos mais diretos com fundamentos de uma religião de matriz africana.
A caminhada, entretanto, ainda passaria por diferentes caminhos. Aos 15 anos, começou a frequentar a Assembleia de Deus Ministério Belém, onde permaneceu até aproximadamente os 21 anos. Foi batizada, participou ativamente da igreja e chegou a exercer funções de liderança em células de oração e atividades missionárias. Mãe Sara reconhece hoje essa passagem como uma etapa importante para a construção de sua fé.
“Na igreja, eu aprendi a ter fé, aprendi a resistir na fé e aprendi o poder de invocar”, afirma.
Depois de deixar a igreja evangélica, voltou a se aproximar das religiões de matriz africana. Aos 26 anos, encontrou aquela que se tornaria sua mãe de santo, Vó Jô de Eluziara, iniciada no Jeje -Maí e que permaneceu como sua referência religiosa até falecer, em 2024. Mãe Sara viveu durante anos dentro do Candomblé Jeje – Maí, experiência que define como “o grande clarão” de sua vida espiritual.
O chamado para liderar, contudo, não foi imediatamente aceito. Segundo ela, ainda aos 28 anos, Seu Tranca-Ruas das Almas teria determinado que ela deveria deixar outras atividades e viver de sua missão espiritual.
Durante cerca de 11 anos, negociou com a própria espiritualidade para não assumir formalmente essa função. Nesse período, sua casa já recebia pessoas para atendimentos, encontros e manifestações religiosas, mas tudo acontecia de maneira doméstica e restrita ao seu círculo de convivência. A mudança definitiva aconteceu aos 39 anos.
De acordo com Mãe Sara Oni, foi a partir de uma inspiração recebida de Seu Tranca-Ruas das Almas que nasceu o Cinzambi, em 16 de junho de 2016. “E aí começamos a melhor e maior história da minha vida, que é o Cinzambi”, resume.
Uma religião fundamentada na liberdade e na ancestralidade
O Cinzambi tem como valores centrais: respeito, amor e fé no hoje, além de um conceito que se tornou essencial dentro de sua doutrina: a liberdade. A bênção utilizada pela religião é “Ominirá”, traduzida por Mãe Sara como liberdade.
Segundo a mãe de axé, o nome Cinzambi teria sido transmitido por Seu Tranca Ruas das Almas e posteriormente explicado, durante uma manifestação espiritual, por Vovó Maria Conga. Dentro da tradição narrada por Mãe Sara, Cinzambi significa “Deus aqui” e estaria relacionado a um antigo povo que teria como princípios a liberdade e a responsabilidade diante de Deus, o Pai Criador.
A religião tem nos Orixás um de seus principais fundamentos. No Cinzambi, eles são compreendidos como ancestrais superiores e ocupam posição central nos cultos e ritos. Atualmente, são cultuados 18 Orixás, de Pai Oxalá a Exu Orixá, por meio de práticas que incluem rezas, invocações, comidas votivas e sacralizações.
A ancestralidade também ocupa lugar fundamental. Para o Cinzambi, reconhecer a própria ancestralidade é uma forma de compreender a própria existência, a espiritualidade e o destino.
Apesar de carregar influências decorrentes da própria trajetória de sua fundadora, Mãe Sara ressalta que o Cinzambi possui doutrina, hierarquia e práticas próprias. Em relação ao Candomblé, por exemplo, reconhece uma aproximação no uso das comidas votivas e em determinados preceitos, mas afirma que as estruturas religiosas e ritualísticas são distintas e que o Cinzambi se caracteriza por uma menor rigidez.
A proposta, segundo ela, é estabelecer uma aproximação entre o ser humano e os Orixás com menos complexidades, sem abrir mão de disciplina e fundamento.
Outro conceito defendido por Mãe Sara é a “fé no hoje”. Para ela, esse é o principal propósito da religião: fazer com que a espiritualidade seja experimentada no presente e se reflita na responsabilidade de cada pessoa sobre sua própria vida.
“Eu quero que as pessoas tenham fé no hoje”, afirma.
De resistência à missão
Hoje, Mãe Sara Oni define sua principal responsabilidade como a expansão da consciência espiritual de quem chega até ela. Mais do que conquistar seguidores para uma religião, afirma que busca ajudar as pessoas a compreenderem sua relação com a espiritualidade e com os Orixás.
Essa postura também aparece na maneira como orienta quem demonstra interesse em ingressar no Cinzambi. Para ela, uma decisão religiosa não deve nascer da pressa ou do desespero.
“Religião não é para os apressados. Religião é para os constantes, coerentes e consistentes”, defende.

Dentro da casa de axé, Mãe Sara ocupa a posição de fundadora e mãe de axé. O espaço possui uma estrutura hierárquica e diferentes funções religiosas, além de áreas destinadas aos cultos, ritos e práticas reservadas aos integrantes da religião. Parte desses fundamentos permanece fechada ao público, preservando aquilo que o grupo chama de seus “mistérios”.
Ao mesmo tempo, a comunicação tornou-se um dos pilares de sua atuação. O Cinzambi reúne uma comunidade que ultrapassa as fronteiras físicas da casa de axé, com seguidores e integrantes também fora do Brasil. Para Mãe Sara, levar os ensinamentos em uma linguagem compreensível para diferentes idades, classes sociais e países é parte da responsabilidade de expandir a religião sem perder sua identidade.
Depois de percorrer o catolicismo, a igreja evangélica, o Candomblé e diferentes experiências espirituais até fundar sua própria religião, Mãe Sara Oni considera que existe um elemento que atravessa toda a sua história: a fé.
E é justamente essa a mensagem que pretende transmitir a quem se aproxima de seu trabalho.
Instagram: @maesaraonioficial






