Com uma campanha sem o apoio dos principais palanques nacionais, o estrategista mineiro apostou na identidade amazonense, na força das redes sociais e no segundo voto para construir uma comunicação que desafia a lógica tradicional das disputas eleitorais.
BRASÍLIA – Em um país onde boa parte das campanhas eleitorais parece obrigada a escolher entre Lula e Bolsonaro, uma estratégia construída no Amazonas apresentou um caminho diferente. Sem depender dos principais palanques nacionais, sem aliança com candidatos ao governo estadual e com apenas 22 segundos de propaganda eleitoral no rádio e na televisão, Plínio Valério apostou em uma campanha que colocou o Amazonas, e não a polarização, no centro da disputa pelo Senado.
Por trás dessa mudança estava o estrategista de marketing político mineiro Zuza Nacif, responsável por desenvolver uma comunicação digital que transformou as características regionais, as entregas do mandato e a independência política em pilares de uma nova narrativa eleitoral.
A experiência chama atenção por uma razão que vai além do resultado nas urnas: enquanto campanhas tradicionais concentram esforços na transferência de votos de lideranças nacionais, a estratégia de Nacif procurou construir uma conexão direta entre o candidato e os problemas cotidianos do eleitor.
O conceito era simples, mas desafiador: em vez de obrigar o amazonense a escolher um lado da polarização, oferecer uma razão concreta para escolher Plínio Valério.
A VIRADA DE CONCEITO
“O eleitor não deixou de ter posição ideológica. O que fizemos foi mostrar que o primeiro voto poderia ser ideológico e o segundo poderia ser pelo Amazonas.” – Zuza Nacif, estrategista de marketing político
De candidato pouco conhecido a protagonista de uma estratégia digital
O ponto de partida estava longe de ser confortável. Durante boa parte da campanha, Plínio Valério aparecia fora das duas vagas em disputa pelo Senado e chegou a ocupar a quinta posição em alguns levantamentos.
O desafio era ainda maior nas redes sociais. Na pré-campanha, publicações alcançavam poucas dezenas de pessoas, enquanto pesquisas iniciais apontavam um desconhecimento superior a 60% sobre o senador.
O paradoxo era evidente: Plínio tinha um mandato com entregas relevantes, mas boa parte desse trabalho não chegava ao conhecimento da população. Era um senador com atuação em Brasília, mas sem uma presença digital proporcional ao que havia realizado.
Foi nesse cenário que Nacif começou a redesenhar a comunicação.
Em vez de transformar a campanha em uma sucessão de ataques aos adversários ou discursos ideológicos, o estrategista decidiu trabalhar uma pergunta central: por que um eleitor, independentemente de sua preferência política, deveria considerar Plínio Valério uma escolha para o Senado?
A resposta passou pela valorização do território, pela prestação de contas e pela construção de uma linguagem digital capaz de transformar assuntos complexos em conteúdos simples, diretos e compartilháveis.
A primeira mudança não foi no eleitor. Foi no candidato.
Antes de buscar milhões de visualizações, era preciso mudar a maneira como a própria campanha compreendia as redes sociais.
Nacif iniciou um processo de letramento digital com Plínio Valério e sua equipe local. Foram apresentadas referências de comunicação, tendências de consumo de informação e uma metodologia de produção de conteúdo adaptada às características do candidato.
A equipe passou a trabalhar com uma espécie de “anatomia do post”: cada publicação deveria ter um gancho inicial, uma mensagem compreensível, ritmo de edição, identidade visual, trilha sonora e um motivo para ser compartilhada.
Nada deveria estar nas redes apenas para registrar a agenda do senador.
“Rede social não pode ser um diário do candidato. O usuário precisa ter um motivo para parar, assistir, entender e compartilhar e, assim, transformar likes e views em votos”, explica Zuza Nacif.
A transformação também passou pela imagem pessoal de Plínio. O terno e a gravata perderam espaço para roupas mais simples, conversas espontâneas e cenas do cotidiano. A ideia não era criar um personagem artificial, mas aproximar a comunicação da personalidade e da origem do senador.
Com apenas 22 segundos de propaganda eleitoral no rádio e na televisão, o digital deixou de ser um complemento e passou a ocupar posição central na estratégia de comunicação.
Instagram, TikTok e Facebook receberam conteúdos pensados para as características de cada plataforma. Discursos de plenário deram origem a cortes selecionados, enquanto vídeos curtos, jingles vibrantes, legendas dinâmicas e aberturas de impacto ajudaram a apresentar temas políticos em uma linguagem mais próxima do consumo cotidiano de informação.
A NOVA LÓGICA DO DIGITAL
“Rede social não pode ser um diário do candidato. O usuário precisa ter um motivo para parar, assistir, entender e compartilhar.” – Zuza Nacif
Em vez de importar a polarização de Brasília, a campanha decidiu exportar o Amazonas
Um dos movimentos mais importantes da estratégia foi mudar o centro da narrativa política.
Se a polarização nacional pressionava candidatos a se posicionarem a partir de lideranças de fora do estado, a comunicação de Plínio Valério procurou inverter essa lógica: o Amazonas deveria ser o protagonista da eleição.
O slogan “O senador da gente” sintetizou esse posicionamento.
A campanha reforçou a origem amazonense de Plínio, sua ligação com o interior e o conhecimento das particularidades de um estado onde distâncias, rios, floresta e dificuldades logísticas fazem parte da vida cotidiana.
A BR-319, a Zona Franca de Manaus, os investimentos em saúde, a infraestrutura e a destinação de emendas aos municípios ganharam espaço na comunicação. O objetivo era demonstrar que as grandes questões do Amazonas não cabiam integralmente na divisão entre esquerda e direita.
Ao mesmo tempo, a atuação nacional do senador também foi apresentada ao eleitor. Entre os assuntos explorados estavam a CPI das ONGs, a legislação sobre mamografia no SUS, a autonomia do Banco Central e propostas relacionadas ao Supremo Tribunal Federal.
O ponto de conexão entre esses temas era a imagem de um senador independente, capaz de defender suas posições e os interesses do estado.
A própria Brasília passou a ocupar um papel simbólico na narrativa: mais do que disputar espaço com outros candidatos, Plínio deveria se apresentar como alguém disposto a enfrentar decisões tomadas longe da realidade amazonense.
“A estratégia foi entender que o eleitor amazonense queria um candidato que falasse da vida real do Amazonas. O desafio era transformar o mandato em uma conversa que coubesse no celular e tivesse a cara do estado”, afirma Nacif.
A comunicação recuperou a figura do “caboco” das barrancas do Juruá, reforçando a identificação regional e a ideia de que o Amazonas precisava ser defendido por alguém que conhecesse sua realidade.
O segundo voto deixou de ser coadjuvante
Talvez a decisão mais singular da estratégia tenha sido transformar uma característica da eleição para o Senado em um dos principais argumentos da campanha.
Com duas vagas em disputa, cada eleitor poderia escolher dois candidatos. Para Nacif, isso abria uma oportunidade: dialogar com pessoas que já tinham preferência por outro nome, sem exigir que abandonassem sua escolha inicial.
Nasceu daí a mensagem “Dê um voto pelo Amazonas”.
Em vez de tratar o segundo voto como uma opção secundária, a campanha passou a apresentá-lo como uma escolha com identidade própria.
Um eleitor poderia manter sua preferência ideológica em um voto e, no outro, considerar os interesses regionais, a experiência parlamentar e as entregas do mandato.
“O eleitor não deixou de ter posição ideológica. O que foi feito foi mostrar que o primeiro voto poderia ser ideológico e o segundo poderia ser pelo Amazonas”, conta Nacif.
A abordagem buscava ampliar a possibilidade de diálogo com diferentes segmentos do eleitorado, sem exigir alinhamento integral com as posições políticas do senador.
A FORÇA DO SEGUNDO VOTO
O primeiro voto podia ter lado. O segundo tinha uma proposta: o Amazonas.
A campanha procurou transformar uma escolha muitas vezes tratada como secundária em uma decisão de protagonismo regional.
Uma campanha que buscou trocar o confronto pela identificação
Em uma eleição polarizada, a estratégia não significava apagar as posições políticas de Plínio Valério ou transformá-lo em um candidato sem opinião.
O desafio era outro: demonstrar que um eleitor poderia discordar do senador em determinados temas e, ainda assim, reconhecer sua atuação em defesa do Amazonas.
Essa distinção foi fundamental para a construção da narrativa.
Enquanto parte da comunicação eleitoral brasileira utiliza o confronto ideológico como principal ferramenta de mobilização, o trabalho desenvolvido por Nacif procurou ampliar a conversa sobre problemas concretos.
Saúde, desenvolvimento, infraestrutura e defesa dos interesses regionais foram apresentados como assuntos capazes de mobilizar pessoas com diferentes preferências partidárias.
A estratégia partia do reconhecimento de que o eleitor possui múltiplas identidades. Ele pode ser de direita ou de esquerda, mas também é morador de Manaus, de uma cidade do interior, usuário do SUS, trabalhador ou empreendedor.
E essas dimensões também influenciam suas decisões políticas.
Um case que provoca uma discussão nacional
A experiência de Plínio Valério oferece um tema relevante para os debates sobre o futuro do marketing político brasileiro.
Em vez de simplesmente reproduzir a polarização nacional, a campanha procurou construir uma identidade própria, com foco na realidade regional e em uma comunicação digital mais acessível.
Para Zuza Nacif, a principal lição é que a estratégia precisa começar pelo entendimento do eleitor, e não pela reprodução automática de fórmulas utilizadas em outras disputas.
“O que aconteceu no Amazonas mostra que não basta escolher um lado e repetir a mesma mensagem para todos. É preciso entender o eleitor, o território e o momento. Plínio Valério tinha posição política, e conseguimos mostrar que ele também tinha história, mandato e uma relação real com o Amazonas e que isso era maior que a polarização”, afirma.
O caso também coloca em discussão o papel das redes sociais nas campanhas contemporâneas. Mais do que alcançar grandes audiências, o desafio está em construir uma mensagem reconhecível, consistente e conectada aos interesses da população.
O trabalho combinou posicionamento político, identidade regional, prestação de contas, transformação da linguagem e valorização do segundo voto.
A LIÇÃO DO AMAZONAS
É possível ter posição política sem fazer da polarização o único argumento de uma campanha.
A lição que o Amazonas deixa para Brasília
Se há uma conclusão importante na estratégia desenvolvida por Zuza Nacif, é que campanhas eleitorais não precisam ser cópias das disputas nacionais para encontrar relevância.
A comunicação de Plínio Valério foi construída a partir de uma leitura específica do Amazonas, do comportamento do eleitor e das oportunidades abertas por uma eleição com duas vagas para o Senado.
A proposta não foi negar a política nacional, mas impedir que ela apagasse os temas regionais.
Em um cenário no qual candidatos frequentemente disputam quem representa melhor uma liderança nacional, a campanha procurou responder a uma pergunta diferente: quem representa melhor os interesses do estado?
Essa mudança de perspectiva é o principal elemento que torna o trabalho de Nacif um case a ser estudado por profissionais de marketing político.
A experiência sugere que, mesmo em um ambiente marcado por fortes divisões ideológicas, ainda existe espaço para estratégias que valorizem a identidade local, a experiência política e a conexão direta com o eleitor.
No Amazonas, a estratégia apostou em uma ideia: antes de pedir ao eleitor que escolhesse um lado do Brasil, era preciso mostrar por que ele deveria escolher o seu próprio estado.






