Dor, inchaço, hematomas e pernas que parecem não responder ao emagrecimento podem ser sinais de lipedema. Médica reforça a importância de um Plano de Tratamento multidisciplinar e tecnologias avançadas
Durante anos, muitas mulheres receberam a mesma resposta ao procurar ajuda: “você precisa emagrecer”. Algumas perderam peso, mudaram a alimentação, começaram a treinar e, ainda assim, continuaram sem entender por que determinadas regiões do corpo permaneciam desproporcionais.
Por trás dessa dificuldade pode existir uma doença crônica: o lipedema
O Consenso Brasileiro de Lipedema, publicado em 2025, estima que a condição esteja presente em 12,3% das mulheres adultas brasileiras e reforça a necessidade de tratamento multiprofissional. O documento também reconhece que fatores inflamatórios e hormonais podem participar da doença e que seu impacto pode ultrapassar os sintomas físicos, atingindo saúde mental e qualidade de vida.
Para Dra. Mirella Sá, médica que acompanha mulheres com lipedema no Espírito Santo, um dos principais desafios é justamente romper a associação automática entre a doença e a obesidade. “São mulheres que muitas vezes passaram anos tentando emagrecer as pernas e se culpando porque não conseguiam. Quando identificamos que existe uma doença crônica por trás daquela condição, precisamos mudar completamente o olhar. Não é simplesmente mandar essa paciente comer menos ou treinar mais”, explica.
A dor que ninguém vê
Há mulheres que deixam de usar determinadas roupas, evitam praia ou piscina e passam a esconder o próprio corpo. Outras diminuem a atividade física devido à dor ou sensação de peso. O impacto psicológico pode envolver baixa autoestima, ansiedade, alterações da imagem corporal e sintomas depressivos. Por isso, Dra. Mirella defende que tratar apenas aquilo que é visível significa enxergar somente uma parte da doença. “Eu não posso olhar apenas para as pernas e esquecer a mulher que está por trás delas. Muitas chegam ao consultório cansadas, frustradas e com a autoestima profundamente afetada. Algumas passaram anos se culpando por uma doença que nem sabiam que tinham”, afirma.
Um plano diferente para cada mulher
Na avaliação, a médica procura compreender a história da paciente como um todo: composição corporal, evolução do peso, alimentação, atividade física, qualidade do sono, dores, limitações e outras condições que possam coexistir. Quando existe indicação clínica, a avaliação metabólica e hormonal também pode integrar essa investigação. “Não existe um protocolo igual para todas. Precisamos entender se essa mulher também apresenta obesidade, alterações metabólicas ou hormonais e quais fatores estão interferindo na saúde dela. Lipedema exige estratégia e acompanhamento, não uma solução isolada”, explica Mirella.
Tecnologia como parte do tratamento
Recursos tecnológicos também podem ser associados ao plano quando houver indicação individual. Entre eles estão o ultrassom micro macrofocado, utilizado em protocolos de estímulo tecidual, e a T Sculptor para estimulação muscular, que promove contrações musculares controladas e pode complementar estratégias voltadas ao fortalecimento e à composição corporal. Para Mirella, entretanto, existe uma diferença fundamental entre utilizar tecnologia dentro de uma estratégia e transformá-la em uma promessa isolada de tratamento. “Eu não trato lipedema colocando uma paciente em uma máquina. A tecnologia entra como parte de um plano. Primeiro precisamos entender essa mulher, trabalhar alimentação, movimento, composição corporal, condições associadas e saúde emocional. Depois avaliamos quais recursos tecnológicos fazem sentido para ela”, afirma.
Muito além da estética
Tratar o lipedema apenas como uma questão estética é ignorar o impacto que a doença pode provocar na vida de uma mulher. Dor, limitações, dificuldade para se exercitar e a relação com o próprio corpo podem acompanhar essas pacientes por anos. Para Mirella, o objetivo não é simplesmente reduzir medidas, mas acompanhar uma doença crônica e devolver qualidade de vida. “Não estamos tratando apenas pernas. Estamos cuidando de uma mulher que pode ter passado anos convivendo com dor, limitações e culpa. O tratamento precisa devolver saúde, confiança e liberdade para viver melhor”, afirma. É essa visão que muda a forma de enxergar o lipedema: sai a busca por uma solução estética isolada e entra um cuidado contínuo, individualizado e multidisciplinar.
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