# Genética em Doenças Neuromusculares: Da evolução à necessidade
Em entrevista exclusiva ao Estadão, os médicos Marco Orsini, Acary Bulle de Oliveira e o geneticista Miguel Mitne elucidam pontos positivos, negativos e situações que exigem extrema destreza nas decisões após os resultados. Orsini aponta uma evolução exponencial no número de genes envolvidos com doenças neuromusculares nas últimas três décadas, mas adota uma postura cautelosa ao destacar que esses testes são um recurso importante não apenas para o diagnóstico, mas também para a identificação de alvos terapêuticos direcionados a mutações específicas.
Ele ressalta que existe uma grande diferença entre solicitar exames com um objetivo clínico bem definido e fazê-lo de maneira indiscriminada, reforçando que o melhor teste genético não é o mais abrangente, mas aquele capaz de responder a uma pergunta clínica específica, geralmente única. Segundo ele, essa reflexão faz parte do cotidiano médico e envolve questionamentos sobre o real valor do exame, o que se pretende descobrir, se haverá possibilidade de tratamento, monitoramento ou orientação familiar, além da elegibilidade para ensaios clínicos.
Na prática médica, Orsini reforça que o primeiro passo deve ser conhecer profundamente o paciente por meio de escuta, investigação familiar, anamnese detalhada e exame clínico e neurológico minucioso. Esses elementos, aliados a sintomas compatíveis e a um rastreio completo com exames laboratoriais, biomarcadores, imagem, eletroneuromiografia e biópsia, são fundamentais para direcionar corretamente a investigação. Ele explica que a solicitação do teste genético deve ser precisa, buscando um gene específico com base no raciocínio clínico, e não baseada em achados inesperados que fogem à lógica médica.
Miguel Mitne destaca a complexidade envolvida na interpretação dos testes genéticos ao comparar o resultado a um verdadeiro tribunal do júri, no qual as variantes são analisadas com base na literatura científica e na correlação com o quadro clínico do paciente. Essa análise leva à classificação em cinco categorias: patogênica, provavelmente patogênica, de significado incerto, provavelmente benigna ou benigna.
Ele enfatiza que variantes de significado incerto representam um desafio importante, pois podem gerar confusão, frustração e interpretações equivocadas por parte dos pacientes, especialmente quando há uma tendência de compreensão simplificada, como associar diretamente uma variante genética ao desenvolvimento inevitável de uma doença. Nesse contexto, fatores como variabilidade clínica e penetrância precisam ser considerados, reforçando a importância de uma solicitação bem direcionada e de um acompanhamento pós-teste adequado, mantendo o paciente como protagonista do cuidado.
Apesar dos avanços tecnológicos e do acúmulo de conhecimento sobre milhões de variantes genéticas, ainda há muitos casos em que não se identifica a alteração responsável pela doença, o que mantém pacientes em uma longa jornada diagnóstica. Mitne ressalta que uma alteração genética pode indicar um caminho, mas não determina necessariamente o destino, além de destacar que os resultados impactam não apenas o indivíduo, mas toda a família, tornando o processo compartilhado.
Ao final, Orsini alerta que a prática de solicitar testes amplos indiscriminadamente aumenta a chance de resultados inconclusivos, achados incidentais e informações difíceis de interpretar, podendo gerar desconexão entre os sintomas clínicos e os achados genéticos. Ele sintetiza essa ideia ao afirmar que não adianta procurar respostas complexas sem compreender o contexto clínico.
No Brasil, as doenças neuromusculares raras ainda representam um grande desafio diagnóstico, mas os avanços recentes reforçam a necessidade de uma medicina de precisão, com centros especializados preparados para esse tipo de demanda. O diretor do Hospital Niterói D’Or, médico Paulo, destaca a importância de reduzir atrasos diagnósticos, especialmente quando pacientes procuram atendimento em unidades de saúde ou emergências. O Ministério da Saúde estima que milhões de brasileiros convivam com doenças raras, muitos ainda sem diagnóstico, embora haja avanços em genética diagnóstica, terapias gênicas e incorporação de algumas condições pelo SUS.
Mitne, Orsini e Acary Bulle de Oliveira reforçam que o teste genético não deve ser utilizado como triagem ampla para qualquer sintoma neuromuscular, sendo essencial alinhar o que se busca com o que se espera encontrar. Acary conclui com uma reflexão ao comparar o uso indiscriminado da tecnologia a uma cartola mágica, onde nem tudo é o que parece, destacando que a realidade pode ser diferente do que se imagina e que interpretar corretamente os resultados é fundamental.